Supremum - O Peso do Segredo -T1/E4
O PESO DO SEGREDO
Colégio Estadual de Cosmópolis
Manhã Seguinte
A sala do diretor cheirava a café velho e papel empoeirado. Luíza Maria Menning entrou com passos firmes, a bolsa pendurada no ombro, o queixo erguido. Ela tinha passado a noite inteira planejando aquela conversa. Ensaiando cada palavra, cada argumento, cada contra-ataque possível.
Diretor Mário Alcântara estava sentado atrás da mesa de madeira escura, os óculos na ponta do nariz, uma expressão de quem não tinha dormido direito. À direita dele, a vice-diretora Regina observava com os braços cruzados. À esquerda, a professora de educação física, Sônia, que tinha presenciado o incidente.
— Senhora Menning — o diretor começou, gesticulando para a cadeira vazia. — Por favor, sente-se.
— Prefiro ficar em pé. — Luíza não se moveu da porta. — Isso não vai demorar.
O diretor trocou um olhar com a vice-diretora.
— Entendo que ontem foi... um dia difícil. Para todos nós. Especialmente para seu filho.
— Especialmente para as seis crianças que quase foram atropeladas — Luíza cortou, a voz afiada como vidro. — Porque estavam brincando sem supervisão na saída, em uma zona de risco.
O diretor abriu a boca, mas ela continuou:
— Zona de risco que, aliás, não tem nenhuma sinalização adequada. Nenhum guarda controlando o trânsito. Nenhum protocolo de segurança visível. — Ela deu um passo à frente. — Meu filho teve muita sorte de não ter sido atropelado também. Porque se alguma coisa tivesse acontecido com ele...
Ela deixou a frase no ar, carregada de ameaça implícita.
— Senhora Menning, nós entendemos sua preocupação — a vice-diretora tentou intervir. — Mas o que aconteceu ontem foi... extraordinário. Há testemunhas dizendo que Andrew...
— Que Andrew o quê? — Luíza a encarou. — Que um adolescente de quinze anos, pesando sessenta quilos, parou um carro com as mãos? — Ela riu, um som curto e seco. — Isso é o que vocês estão sugerindo?
O silêncio na sala foi desconfortável.
— Porque se for — Luíza continuou — eu sugiro que revejam as testemunhas. Porque num tribunal, quando eu processar esta escola e a prefeitura por negligência e exposição de menores a risco, vai ser muito fácil demonstrar que pessoas em estado de choque não são testemunhas confiáveis.
O diretor empalideceu.
— Processar?
— Processar. — Luíza colocou a bolsa na mesa com um baque seco. — Meu filho quase morreu ontem. Seis crianças quase morreram. E vocês querem criar uma narrativa fantasiosa sobre superpoderes em vez de admitir que houve falha grave nos protocolos de segurança?
A professora Sônia se remexeu na cadeira.
— Mas senhora Menning, eu vi... eu estava lá...
— A senhora viu um acidente sendo evitado por pura sorte. — Luíza não desviou o olhar do diretor. — Meu filho reagiu por instinto, empurrou as crianças para longe. O motorista conseguiu frear no último segundo. Fim da história.
— Mas o carro estava amassado... — Sônia insistiu.
— Porque bateu no poste logo depois! — Luíza elevou a voz. — Ou vocês não viram? O carro desviou, bateu no poste, por isso estava amassado!
Não tinha poste nenhum. Mas ela disse com tanta convicção que até a professora hesitou.
— Eu... acho que tinha um poste, sim...
— Exatamente. — Luíza pegou a bolsa de volta. — Então vamos encerrar essa história absurda agora. Antes que vire um circo na imprensa e todo mundo aqui perca o emprego quando os processos começarem a chover.
Diretor Mário tirou os óculos e esfregou os olhos. Ele parecia ter envelhecido dez anos naquela noite.
— O que a senhora sugere?
— Eu sugiro — Luíza falou devagar, como se explicasse para crianças — que vocês tratem isso como o que foi: um acidente evitado por sorte. Que reforcem os protocolos de segurança. Que instalem sinalização adequada. E que parem de espalhar histórias malucas sobre meu filho.
Ela se virou para sair, mas parou na porta.
— Ah, e uma última coisa. Se eu descobrir que alguém aqui está alimentando essas teorias conspiratórias... vou assumir que é uma tentativa deliberada de difamar um menor de idade. E aí... — Ela sorriu friamente. — Aí os processos vão ser por danos morais também.
E saiu, fechando a porta com firmeza.
Do lado de fora, no corredor vazio, ela encostou na parede e soltou o ar que estava segurando. As mãos tremiam. O coração disparava.
Por favor, ela pensou. Por favor, que funcione.
Sala de Aula - Dois Dias Depois
Andrew estava tentando se tornar invisível.
Não literalmente — até onde ele sabia, não tinha esse poder. Mas estava fazendo o melhor que podia: sentado no fundo da sala, capuz sobre a cabeça, olhos fixos no caderno, não fazendo contato visual com ninguém.
Não estava funcionando.
— Cara, você é tipo... o Homem de Aço agora? — Lucas sussurrou da carteira ao lado, com aquele sorriso idiota dele.
— Não sou nada. — Andrew não olhou para cima.
— Mas você parou o carro! Todo mundo viu!
— Todo mundo viu errado.
— Como assim?
— O motorista freou. Eu só empurrei as crianças. Fim.
Lucas abriu a boca para discutir, mas a professora de história entrou e a aula começou.
No intervalo, foi pior.
— Andrew! — Sofia veio correndo, a trança loira balançando. — É verdade que você tem super força?
— Não.
— Mas eu vi! Você tava lá na árvore e no segundo seguinte tava na frente do carro!
— Eu corri rápido. Adrenalina.
— Ninguém corre tão rápido.
— Eu corri. — Ele pegou a mochila. — Com licença.
Saiu antes que ela pudesse continuar.
No banheiro, lavou o rosto com água fria, olhando para o próprio reflexo no espelho sujo. Olhos verdes — herdados do pai que nunca conheceu. Cabelo loiro bagunçado. Rosto comum, nada especial.
Por favor, ele pensou. Por favor, deixem isso morrer.
A porta do banheiro se abriu.
Paulo entrou — o melhor amigo de Andrew desde a quinta série. Alto, magro, sempre com aquele sorriso torto que parecia saber de algo que você não sabia.
— Então — Paulo disse, encostando no balcão ao lado dele. — Quer me contar o que realmente aconteceu?
Andrew fechou a torneira.
— Você também vai começar com isso?
— Eu não tô começando nada. — Paulo cruzou os braços. — Só acho estranho que de repente você virou o Flash da vida real e ninguém pode falar sobre.
— Eu não sou o Flash.
— Tá bom. — Paulo ergueu as mãos em rendição. — Relaxa. Eu não vou espalhar nada. Só... — Ele hesitou. — Só queria saber se você tá bem. De verdade.
Andrew olhou para o amigo. Paulo era a pessoa mais próxima que tinha na escola. Talvez a única pessoa que se importava de verdade.
— Eu tô bem — ele disse, mais suave. — Foi só... uma situação maluca. E eu tive sorte. Só isso.
Paulo o estudou por um longo momento. Então assentiu.
— Tá. Se você diz.
Mas Andrew viu no olhar dele. Paulo não acreditava. Nem um pouco.
Mas era bom amigo demais para pressionar.
Três Semanas Depois
A história morreu. Não completamente — ainda tinha gente sussurrando nos corredores, olhando de canto de olho — mas a intensidade diminuiu. O diretor tinha feito um discurso na assembleia sobre "boatos infundados" e "respeitar a privacidade dos alunos". As filmagens que algumas pessoas juravam ter feito? Todas saíram estranhas. Borradas. Escuras. Como se algo tivesse interferido nos celulares.
Andrew não entendia como, mas não ia questionar a sorte.
E então, finalmente, a vida voltou ao normal.
Mais ou menos.
Dois Anos Depois
O ginásio de esportes do colégio tinha visto dias melhores. A pintura das paredes estava descascada, as arquibancadas de madeira rangiam, e o teto tinha manchas de umidade que sugeriam que o próximo temporal ia virar piscina ali dentro.
Mas era tradição. Toda turma que se formava passava uma semana antes da cerimônia reformando o ginásio. Pintando, limpando, decorando.
Era trabalho duro.
E Andrew adorava.
Tinha algo de relaxante em pintura física. Algo que exigia força mas não pensamento. Só o movimento repetitivo do rolo, o cheiro forte da tinta, o cansaço bom dos músculos no fim do dia.
Claro, ele tinha que fingir que estava cansado. Tinha que parar de vez em quando, fingir que o braço doía, pedir água.
Ser normal era exaustivo.
— Cara, você tá pintando a mesma parede há vinte minutos — Paulo disse, descendo da escada com o balde de tinta. — Ou cê tá apaixonado por essa parede ou tá enrolando.
Andrew riu.
— Só quero que fique perfeita.
— Perfeita pra quê? — Paulo jogou uma flanela nele. — Daqui a dois meses ninguém vai lembrar como tava.
— Ainda assim.
Paulo balançou a cabeça, sorrindo. Eles tinham virado amigos inseparáveis nos últimos dois anos. Estudavam juntos, almoçavam juntos, dividiam fones de ouvido no intervalo ouvindo as mesmas músicas ruins.
Ele era a pessoa mais próxima que Andrew tinha, fora da mãe.
— Vamos fazer uma pausa? — Paulo sugeriu, sentando na arquibancada. — Meus braços tão me matando.
— Os seus braços? — Andrew se juntou a ele, fingindo ofegância. — Eu quem pintei o dobro que você.
— Porque você é um robô disfarçado.
— Ou você que é fraco.
Paulo deu um soco de brincadeira no ombro dele. Eles ficaram ali, lado a lado, olhando para o ginásio meio pintado. Lá fora, o sol começava a se pôr, tingindo tudo de laranja através das janelas sujas.
— Não acredito que a gente tá se formando — Paulo disse, pensativo. — Parece que foi ontem que a gente se conheceu na quinta série.
— Você roubou meu lanche.
— Eu não roubei. Eu pedi emprestado.
— Você nunca devolveu.
— Detalhes. — Paulo riu. Depois ficou sério. — E agora? Depois da formatura? Você já decidiu?
— Direito. USP. — Andrew tinha ensaiado essa resposta mil vezes. — Minha mãe sempre quis que eu fizesse.
— Sua mãe quer ou você quer?
Andrew hesitou.
— As duas coisas, eu acho.
Paulo assentiu, mas não pareceu totalmente convencido.
— E você? — Andrew perguntou. — Já sabe?
— Direito também. — Paulo sorriu. — Quero ser delegado na Polícia Federal. Tipo meu pai.
— Seu pai é foda.
— É. Ele é. — O orgulho era óbvio na voz dele. — Investigador há quinze anos. Já pegou tanta gente corrupta que perdeu a conta. Minha mãe vive dizendo que ele trabalha demais, mas... eu sei que ele ama o que faz.
— Deve ser legal. Ter um pai assim.
As palavras saíram antes que Andrew pudesse segurá-las. Ele sentiu o arrependimento imediato.
Paulo virou para ele.
— Desculpa, cara. Eu... eu sei que seu pai... — Ele tropeçou nas palavras. — Cara, desculpe. Não precisa falar nada se não quiser. É que eu sou curioso demais, sempre boto o pé na jaca...
— Tudo bem. — Andrew cortou antes que virasse mais estranho. — Sério. Tudo bem.
Ficaram em silêncio por um momento. Então Andrew respirou fundo.
— Meu pai não era brasileiro. Ele era canadense.
Paulo piscou, surpreso.
— Sério?
— Sério. — Andrew olhou para as próprias mãos. — Ele veio pro Brasil com treze anos. Família dele se mudou por causa de trabalho. Ele cresceu aqui, se naturalizou, virou brasileiro de coração. Conheceu minha mãe na universidade.
— Que tipo de trabalho eles faziam?
— Pesquisa. — A mentira veio fácil agora, depois de anos de prática. — Usina hidroelétrica. Meu pai era engenheiro chefe, minha mãe também. Eles trabalhavam juntos.
— Legal.
— Era. — Andrew engoliu em seco. — Até o acidente.
Paulo ficou quieto, esperando.
— Minha mãe tava grávida de mim. Três meses. E teve um acidente na usina. Uma explosão. Meu pai... ele não sobreviveu.
— Cara... — Paulo colocou a mão no ombro dele. — Eu sinto muito.
— Eu nem conheci ele. — Andrew forçou um sorriso. — Então não dá pra sentir falta de alguém que você nunca conheceu, né?
— Dá sim. — Paulo apertou o ombro dele. — Claro que dá.
Eles ficaram ali, no silêncio confortável da amizade que não precisa de palavras.
Então Paulo se levantou, limpando as mãos na calça.
— Vamos terminar essa parede antes que escureça? Minha mãe me mata se eu chegar em casa depois das nove de novo.
Andrew riu e se levantou também.
— Sua mãe é assustadora.
— Marta Gisele Farias não é pra brincadeira.
— Roberto Carlos Farias e Marta Gisele Farias. — Andrew repetiu os nomes. — Seus pais têm nomes muito formais.
— Culpa dos meus avós. Eles eram clássicos.
Voltaram para a pintura, o clima mais leve agora. Andrew sentia algo quente no peito — gratidão, talvez. Por ter um amigo que ouvia sem julgar. Que respeitava os limites.
Por ter alguém em quem podia confiar.
Ou quase confiar.
— Mudando de assunto Andrew... Paulo falou com um sorriso maroto... Você vai ou não vai ficar com ela?
— Com quem? — Respondeu Andrew com outra pergunta, fazendo cara de quem não sabia o que Paulo estava falando.
— Com a Isa, com quem seria? A formatura é sua última chance hein! — Paulo retrucou com tom de provocação.
— Ah, sei lá! Vai que levo um fora, com que cara eu fico na formatura?
— Eu acho que ela está na sua faz tempo, mas você é muito cagão pra chegar.
— Sou nada! Eu que não quis porque ... porque... porque não queria perder o foco dos estudos, só isso!
— Sei, me engana que eu gosto!
Os dois começaram a rir e se provocar tentando ver quem era mais covarde com meninas.
Já era noite quando terminaram. As luzes do ginásio piscavam precariamente — a fiação antiga reclamando do esforço. Lá fora, o céu tinha escurecido completamente, e Andrew podia ouvir o trovão distante.
— Tempestade vindo — Paulo observou, guardando os pincéis. — A gente devia ir.
— Só falta fechar as janelas. — Andrew apontou para as janelas altas que tinham deixado abertas para ventilar.
— Eu fecho. Você guarda as tintas.
Eles se dividiram. Andrew empilhou os baldes de tinta no canto, cobriu com lona, checou se tudo estava seguro. Paulo subiu na escada alta para alcançar as janelas.
Foi quando o vento bateu.
Uma rajada violenta entrou pelas janelas abertas, fazendo o ginásio inteiro tremer. A estrutura metálica do teto rangeu alto — um som horrível de metal sendo torcido.
Andrew olhou para cima e sentiu o sangue gelar.
Uma das vigas de sustentação tinha se soltado. Estava balançando, presa por apenas um parafuso. E estava diretamente sobre Paulo.
— PAULO! — Andrew gritou. — SAI DAÍ!
Paulo olhou para cima, viu a viga, e congelou. O tipo de paralisia que vem quando o cérebro simplesmente não consegue processar o perigo rápido o suficiente.
O parafuso cedeu.
A viga começou a cair.
E Andrew se moveu.
Não teve escolha. Não teve tempo para pensar nas consequências, no segredo, em nada.
Apenas agiu.
Seus pés cruzaram o ginásio tão rápido que o mundo se transformou em borrão. Ele alcançou Paulo em menos de um segundo, puxou o amigo da escada com um braço, e com o outro...
Segurou a viga.
O impacto foi brutal. Duzentos quilos de metal caindo de seis metros de altura. Deveria ter esmagado Andrew no chão.
Mas ele segurou.
Com um braço.
Sem esforço visível.
O silêncio que se seguiu foi absoluto, quebrado apenas pelo barulho da chuva começando lá fora.
Paulo, caído no chão onde Andrew o tinha jogado, olhou para cima. Olhou para a viga suspensa no ar. Olhou para Andrew segurando aquilo como se fosse feita de isopor.
Seus olhos se arregalaram.
— O quê... — A voz saiu num sussurro estrangulado. — Como você...?
Andrew soltou a viga no chão com cuidado. O metal bateu com um estrondo surdo.
Ele se virou para Paulo, o coração disparando, as mãos tremendo.
Merda. Merda. Merda.
Dois anos. Dois anos desde o incidente com o carro. Dois anos mantendo o segredo.
E em um segundo, tudo tinha desmoronado de novo.
Paulo se levantou devagar, sem tirar os olhos de Andrew.
— Você... você segurou... — Ele apontou para a viga. — Com um braço.
Andrew abriu a boca, mas não saiu som nenhum. Que diabos ele ia dizer? Que mentira ia inventar dessa vez?
— Aquilo devia pesar... duzentos quilos? Trezentos? — Paulo continuou, a voz subindo. — E você segurou como se fosse nada!
— Paulo...
— E aquele dia! Há dois anos! O carro! — Ele deu um passo à frente. — Era verdade, não era? Você realmente parou aquele carro!
— Paulo, eu posso explicar...
— EXPLICA ENTÃO! — O grito ecoou no ginásio vazio. — Que diabos você é, Andrew?!
O silêncio voltou, pesado, sufocante.
Andrew olhou para o amigo. Para os olhos dele arregalados, assustados, mas também... curiosos. Não havia ódio ali. Não havia repulsa.
Havia apenas confusão. E medo. Mas não medo dele. Medo por ele.
— Eu... — Andrew respirou fundo. — Eu não sou normal.
— Isso já tá óbvio.
— Eu sou... diferente. Desde que nasci. — Ele procurou as palavras certas. — Eu sou mais forte que as pessoas normais. Mais rápido. Mais... resistente.
Paulo processou isso por um longo momento.
— Por quê? Como?
— Eu não sei todos os detalhes. — Não era totalmente mentira. — Mas tem a ver com o acidente. O que matou meu pai. Minha mãe tava grávida. A radiação... fez algo comigo.
— Radiação? — Paulo arregalou ainda mais os olhos. — Você é radioativo?!
— Não! Não desse jeito! — Andrew levantou as mãos. — Eu não sou perigoso pras pessoas. Eu juro. Minha mãe checou mil vezes.
— Sua mãe sabe?
— Ela sempre soube. Ela me estudou a vida toda. Me protegeu.
Paulo deu alguns passos, processando. Passou a mão pelo cabelo. Começou a rir — aquele riso nervoso de quem não sabe como reagir.
— Cara... você é tipo... um super-herói?
— Eu não sou super-herói. Eu só... tenho alguns poderes. E eu escondo. Sempre escondi.
— Por quê?
— Porque... — Andrew sentou na arquibancada, exausto. — Porque se as pessoas souberem, vão querer me estudar. Me transformar em experiência. E minha mãe... ela abriu mão de tudo pra me proteger. Eu não posso deixar que isso tenha sido em vão.
Paulo ficou parado por um longo momento. Então, devagar, se aproximou e sentou ao lado dele.
— Você salvou minha vida — ele disse, simplesmente. — De novo.
— Eu não ia deixar você morrer.
— Mesmo que isso significasse expor seu segredo.
— Mesmo assim.
Paulo olhou para ele. E então sorriu — aquele sorriso torto e sincero.
— Seu segredo tá seguro comigo, cara. Eu juro. Por tudo que é sagrado. Eu nunca vou contar pra ninguém.
Andrew sentiu algo se soltar dentro do peito. Alívio. Gratidão. Esperança.
— Sério?
— Sério. — Paulo estendeu a mão. — Amigos de verdade guardam segredos. Não importa quão malucos sejam.
Andrew apertou a mão dele, sentindo o aperto firme, honesto.
— Obrigado.
— Disponha, Super-Andrew.
— Não me chama assim.
— Tarde demais. Já gravei no cérebro.
Eles riram, e a tensão finalmente se dissipou.
Lá fora, a tempestade rugia com força total. Mas dentro do ginásio, entre dois amigos, havia algo mais forte que qualquer tempestade.
Confiança.
E Andrew percebeu que, pela primeira vez em anos, não estava completamente sozinho com seu segredo.
Havia alguém mais que sabia.
E que ia protegê-lo tanto quanto ele mesmo.









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