Supremum - Um Dia Perfeito (Ou Quase) -T1/E10

UM DIA PERFEITO (OU QUASE) 


Casa dos Menning

13h42min

Andrew estava em frente ao espelho do banheiro, tentando decidir se o cabelo loiro estava bom ou horrível.

Ele tinha passado gel. Depois tirado. Depois colocado de novo. Agora estava considerando lavar tudo e começar do zero.

— Filho, o Paulo já chegou! — A voz de Luíza veio de baixo.

— JÁ VOU!

Ele desistiu do cabelo, jogou uma camiseta azul marinho por cima — a que Isadora tinha dito que combinava com os olhos dele — e desceu as escadas correndo.

Luíza estava na porta, conversando com Paulo através da tela. Quando Andrew apareceu, ela se virou.

— Vocês vão ter cuidado, né? — O tom era casual, mas Andrew viu a preocupação nos olhos dela.

— Mãe, a gente só vai no shopping.

— Eu sei. Mas depois de ontem...

— A gente vai ficar bem. — Ele a beijou na testa. — Prometo.

Ela segurou o rosto dele por um segundo, depois soltou, forçando um sorriso.

— Divirtam-se. E não voltem tarde demais.

Andrew saiu e entrou no Gol preto de Paulo. O carro estava impecável — Paulo claramente tinha lavado de manhã.

— Cara, você lavou o carro pra buscar a Camila? — Andrew perguntou, colocando o cinto.

— Lógico. Primeira impressão é tudo.

— Paulo, vocês já namoram. A primeira impressão já passou há tipo... três dias.

— Mas cada dia é uma nova primeira impressão! — Paulo defendeu, saindo da garagem. — Eu preciso manter o padrão.

Andrew riu, balançando a cabeça.

— Você é ridículo.

— Ridiculamente comprometido com o relacionamento.

A música tocava baixa no rádio — alguma playlist de pop que Paulo tinha montado. O céu estava limpo, azul brilhante, com aquele calor gostoso de fim de tarde que ainda não tinha chegado.

Era um dia perfeito.

Pelo menos, deveria ser.


14h03min

Pegaram Isadora primeiro. Ela estava esperando na porta de casa, usando um vestido azul claro que fazia o cabelo loiro brilhar sob o sol. Quando viu Andrew descendo do carro, sorriu daquele jeito que fazia o estômago dele dar voltas.

— Oi — ela disse, meio tímida.

— Oi. — Ele a puxou para um abraço rápido. — Você tá linda.

— Obrigada. — Ela corou levemente. — Você também tá bonito.

— Bonito? — Paulo gritou do carro. — O cara passou quarenta minutos no espelho e você só diz bonito?

— PAULO! — Andrew e Isadora falaram ao mesmo tempo.

— Que foi? Tô sendo sincero!

Isadora riu, entrando no banco de trás. Andrew foi junto, fechando a porta.

— Próxima parada: buscar a Camila e rezar pra ela não me matar por ter deixado vocês dois fazerem fofoca antes — Paulo disse, acelerando.


Camila estava na porta do prédio dela, olhando o relógio. Quando o Gol parou, ela abriu a porta do passageiro antes mesmo de Paulo desligar o motor.

— Três minutos atrasado, Farias.

— O trânsito...

— Mentira. Você parou num posto pra comprar chiclete.

Paulo abriu a boca. Fechou. Abriu de novo.

— Como você sabe?

— Porque você sempre compra chiclete antes de me ver. — Ela entrou no carro, se inclinando para beijá-lo no rosto. — E eu acho fofo.

Paulo sorriu, aliviado.

— Você me assusta às vezes.

— Bom. Mantém você na linha.

No banco de trás, Isadora sussurrou para Andrew:

— Eles são perfeitos juntos.

— São — ele concordou, observando os dois na frente. — Tipo... assustadoramente perfeitos.

Camila se virou, sorrindo para eles.

— Oi, gente! Prontos pro melhor sábado das nossas vidas?

— Sempre — Isadora respondeu.

Andrew apenas sorriu. Porque naquele momento, com seus três melhores amigos no carro, música tocando, sol brilhando...

Ele realmente acreditou que seria um dia perfeito.


Plaza Shopping - 14h20min

O shopping estava lotado. Fim de semana sempre era assim — famílias, adolescentes, casais, todo mundo aproveitando o ar-condicionado e as vitrines brilhantes.

— Primeira parada: cinema! — Camila anunciou, já puxando Paulo pela mão. — Vocês viram que tá passando o novo filme do Hiperman?

Andrew sentiu o estômago apertar.

Hiperman? — Ele tentou soar casual. — Sério?

— Sim! — Isadora se animou. — Eu queria muito assistir! Dizem que é incrível. Muita ação, efeitos especiais...

— Poderes impossíveis — Paulo adicionou, olhando de canto para Andrew com um sorriso malicioso. — Tipo voar, super força, visão de raio-X...

Andrew deu um pisão no pé dele.

— AI!

— Desculpa — Andrew disse, inocente. — Não vi você aí.

Paulo esfregou o pé, ainda sorrindo.

— Tá perdoado.

Compraram os ingressos — Paulo insistiu em pagar para "impressionar" Camila, embora ela tivesse revirado os olhos e dito que ele não precisava. Depois pegaram pipoca (grande, com manteiga extra, porque Paulo disse que "não vale a pena ir no cinema se não for pra exagerar"), refrigerantes enormes, e subiram para a sala.

Era uma daquelas salas IMAX, com tela gigante e som surround que fazia o chão tremer. Sentaram no meio — melhor visão — com Andrew e Isadora de um lado, Paulo e Camila do outro.

As luzes se apagaram. Os trailers começaram.

E então, finalmente, o filme.


15h04min - Durante o Filme

A abertura era grandiosa. Kelyon explodindo. O bebê Kur-Hal sendo enviado para a Terra. A família Taylor encontrando a nave.

Andrew assistia, fascinado apesar do desconforto. Havia algo estranho em ver sua própria vida — ou pelo menos parte dela — sendo dramatizada numa tela de cinema.

— Olha aquele efeito! — Isadora sussurrou, maravilhada, quando o jovem Chris descobriu sua super força pela primeira vez. — Parece tão real.

— É — Andrew murmurou. — Parece.

Na tela, Chris Taylor levantava um ônibus escolar cheio de crianças, salvando todos de se afogarem num rio.

Paulo se inclinou para frente, sussurrando alto o suficiente para Andrew ouvir:

— Cara, imagina se existisse alguém assim de verdade?

Andrew não respondeu. Só comeu pipoca, tentando parecer desinteressado.

Mas sua mente girava.

Existem pessoas assim. Você tá sentado ao lado de uma.

Na tela, Chris estava aprendendo a voar. Tentando, caindo, tentando de novo. Era cômico.

Andrew não sabia voar. Pelo menos, nunca tinha tentado. Tinha medo de tentar e descobrir que não conseguia. Ou pior — tentar e descobrir que conseguia, e então ter que lidar com mais uma coisa que o separava das pessoas normais.

A cena mudou. Chris adulto, usando o uniforme pela primeira vez. Vermelho e azul. A capa. O H no peito.

— Ele é tão bonito — Camila suspirou.

Paulo fez uma careta.

— Ei, eu tô aqui.

— Você também é bonito, amor. — Ela beijou a bochecha dele. — Mas o Henry Curtis...

— É o Henry Curtis — Isadora completou, rindo.

Andrew se inclinou para Isadora, sussurrando:

— Eu também acho ele bonito.

Ela riu, abafando o som com a mão.

O filme continuou. Vilão apareceu — General Zhur, outro Kelyano. A batalha começou. Prédios sendo destruídos. Carros voando. Hiperman e Zhur trocando socos que criavam ondas de choque.

Andrew observava a coreografia, analisando tecnicamente.

Irreal. Se eu socasse alguém com minha força total, não explodiria prédios. Mas machucaria. Muito.

Ele lembrou de Xavante. De como tinha segurado o homem pela jaqueta, jogado ele contra as caixas. Tinha usado apenas uma fração da força. Se tivesse usado mais...

— Você tá bem? — Isadora sussurrou, tocando o braço dele.

Ele piscou, voltando ao presente.

— Tô. Por quê?

— Você tá tenso. — Ela entrelaçou os dedos nos dele. — Relaxa. É só um filme.

Só um filme, ele repetiu mentalmente. Onde um alienígena com superpoderes tenta se encaixar num mundo que não o entende.

Não era um filme.

Era meio que uma biografia não autorizada, embora ele não fosse um alienígena.


16h37min - Saindo do Cinema

Quando as luzes voltaram e os créditos começaram a rolar, os quatro saíram da sala animados, comentando sobre as cenas.

— Aquela parte em que ele salvou o avião? — Camila gesticulava empolgada. — Incrível! Impossível, mas incrível!

— Tecnicamente — Paulo começou, no modo nerd dele — a força necessária pra segurar um avião em queda seria tão grande que o corpo dele perfuraria o avião em vez de segurá-lo. Física básica.

— Paulo, você acabou de destruir a magia do cinema — Isadora reclamou.

— Eu não destruí! Só estou sendo realista!

— Ninguém quer realismo num filme de super-herói — Camila retrucou.

Andrew andava atrás deles, meio perdido nos próprios pensamentos. Isadora percebeu e desacelerou até ficar ao lado dele.

— O que você achou? — ela perguntou. — Você ficou quieto no final.

— Achei bom. — Ele forçou um sorriso. — Só... pensando.

— Pensando no quê?

— Em como seria. — Ele escolheu as palavras com cuidado. — Ter poderes assim. Ser diferente. Ter que esconder o tempo todo.

Isadora inclinou a cabeça, pensativa.

— Acho que seria solitário. Tipo... você nunca poderia ser totalmente você mesmo. Sempre teria que fingir. Sempre teria que segurar.

— É. — Andrew engoliu em seco. — Acho que seria exatamente assim.

Ela apertou a mão dele.

— Mas pelo menos ele tinha pessoas que sabiam. A namorada e a mãe dele. Acho que isso ajudava. Não estar completamente sozinho.

Andrew olhou para ela — para os olhos azuis, para o sorriso suave — e sentiu algo apertar no peito.

Eu não tô sozinho, ele pensou. Eu tenho você. Eu tenho o Paulo. Eu tenho minha mãe.

— É — ele disse, mais suave. — Acho que ajudava mesmo.


16h52min - Lojas de Roupa

— VAMOS LÁ! — Camila anunciou, parando em frente a uma loja chamativa de roupas femininas. — Vocês dois vão ser nossos juízes de moda.

Paulo gemeu.

— Não de novo...

— De novo o quê? A gente nunca fez isso!

— Mas eu já sei como termina. A gente fica aqui por três horas, vocês experimentam cinquenta roupas, compram duas, e no final dizem que não gostaram de nenhuma.

Camila deu um tapa de leve no braço dele.

— Pessimista.

— Realista.

Andrew riu, sendo arrastado por Isadora para dentro da loja.

E Paulo estava certo. Mais ou menos.

Isadora experimentou seis vestidos. Cada um, ela saía do provador, girava, perguntava a opinião de Andrew.

O primeiro era azul-claro, rodado.

— E aí?

— Lindo.

O segundo era preto, mais justo.

— E esse?

— Lindo.

O terceiro era vermelho, com alças finas.

— Andrew, você tá prestando atenção?

— Tô! E tá lindo!

Ela cruzou os braços, tentando parecer brava mas não conseguindo segurar o sorriso.

— Você vai dizer que tá lindo pra todos, né?

— Provavelmente. — Ele se levantou, caminhando até ela. — Porque você fica linda em tudo.

Ela corou, empurrando ele de leve.

— Você é impossível.

Do outro lado da loja, Camila tinha encontrado algo que achou hilário: uma camisa havaiana. Floral. Rosa choque. Com flamingos.

Ela foi até Paulo, que estava sentado num sofá, mexendo no celular.

— Amor?

Ele olhou para cima. Viu a camisa. Os olhos se arregalaram.

— Não.

— Por favor?

— Camila, eu não sou cantor de pagode dos anos 90.

— Mas você ficaria tão fofo!

— Eu ficaria ridículo.

— Exatamente. Fofo e ridículo. — Ela fez cara de cachorrinho pidão. — Por favor? Só experimenta?

Paulo olhou para Andrew, buscando apoio.

Andrew apenas sorriu e deu de ombros.

— Traidor — Paulo murmurou.

Cinco minutos depois, ele saiu do provador usando a camisa havaiana. Flamingos rosa contra um fundo de folhas verdes berrantes.

Camila explodiu em risadas.

Isadora também.

Andrew tentou segurar, mas não conseguiu.

— VOCÊS SÃO CRUÉIS! — Paulo reclamou, mas estava sorrindo também. — EU PAREÇO UM TURISTA PERDIDO!

— Você parece adorável — Camila corrigiu, tirando uma foto.

— NÃO! Apaga isso!

— Nunca. — Ela guardou o celular longe do alcance dele. — Isso vai pro álbum de memórias.

— Camila, eu te amo, mas vou ter que te processar por difamação.

— Você não está nem na faculdade ainda. Não pode me processar.

— Tecnicamente, qualquer cidadão pode...

— PAULO!

Eles riram, e por alguns minutos, tudo foi leve. Fácil. Normal.

Exatamente o que precisavam.


17h38min - Praça de Alimentação

Depois de comprarem algumas coisas — Isadora levou o vestido vermelho, Camila comprou a camisa de flamingos só pra zoar Paulo — desceram para a praça de alimentação.

O cheiro de hambúrguer, pizza e batata frita inundava o ar. Mesas lotadas de famílias, grupos de adolescentes, casais.

Eles pediram no balcão: dois hambúrgueres artesanais gigantes, batatas fritas com queijo cheddar derretido por cima, anéis de cebola, e milkshakes — dois de chocolate, dois de morango.

— Vocês vão dividir? — O atendente perguntou, olhando para Andrew e Isadora.

— Sim — Isadora respondeu, sorrindo.

— Fofinhos — o cara murmurou, anotando.

Sentaram numa mesa de canto. Paulo atacou o hambúrguer como se não comesse há dias.

— Cara, devagar — Andrew disse. — Você vai engasgar.

— Comida de shopping não conta como refeição normal — Paulo respondeu de boca cheia. — Então não tem regras de etiqueta.

Camila revirou os olhos, mas estava sorrindo.

Andrew e Isadora dividiram o milkshake de chocolate, cada um com um canudo, bebendo ao mesmo tempo. Quando perceberam que Paulo estava olhando, pararam.

— O quê?

— Vocês dois — Paulo disse, gesticulando com uma batata — são fofos demais. Tá ficando enjoativo.

— Tá com ciúmes? — Isadora provocou.

— De vocês? Pfff, nunca.

— Mentira — Camila cantarolou. — Você tá morrendo de ciúmes porque quer fazer a mesma coisa comigo mas tem vergonha.

Paulo abriu a boca para negar. Parou. Fechou a boca.

— ...Talvez.

— Aaawn! — Camila se inclinou, beijando a bochecha dele. — Podemos dividir o próximo milkshake.

— Sério?

— Sério.

Paulo sorriu, radiante.

Andrew observava tudo, sentindo aquele calor no peito. Gratidão. Felicidade. A sensação de pertencer.

— E você, Andrew? — Camila perguntou. — Como tá se sentindo? Sobre tudo?

Ele piscou.

— Tudo o quê?

— A faculdade. A USP. Mudar pra São Paulo. — Ela pegou uma batata. — Deve ser assustador.

— Um pouco. — Ele admitiu. — Mas também empolgante. Tipo... é um novo começo, sabe? Novas pessoas. Novas experiências.

— E a gente vai estar lá também — Isadora lembrou, segurando a mão dele sobre a mesa. — Direito, Medicina, tudo no mesmo campus.

— Verdade. — Ele apertou a mão dela de volta. — A gente vai estar junto.

— Os quatro mosqueteiros — Paulo declarou, erguendo o copo de refrigerante. — Conquistando São Paulo, uma aula de cada vez.

Os outros ergueram os copos também.

— Aos quatro mosqueteiros — Camila repetiu.

— E ao futuro — Isadora adicionou.

— E a não reprovar no primeiro semestre — Andrew completou.

Eles riram, batendo os copos.

E naquele momento, sentados naquela praça de alimentação barulhenta, cercados de estranhos, comendo fast food caro demais...

Andrew se sentiu em casa.


18h09min - Fliperama

— ÚLTIMA PARADA! — Paulo anunciou, apontando para o fliperama no terceiro andar.

— Sério? — Camila arqueou uma sobrancelha. — Fliperama? O que é isso, 2005?

— Fliperama é atemporal — Paulo defendeu. — É diversão pura. Sem complicação. Só você, a máquina, e a tentativa de provar que é melhor que seus amigos.

— Competitivo — Isadora observou.

— Sempre.

Entraram no fliperama — luzes neon, música alta, barulho de máquinas apitando e buzzers tocando. Cheirava a pipoca velha e nostalgia.

Paulo foi direto para o jogo de corrida. Andrew o seguiu.

— Preparado pra perder? — Paulo desafiou.

— Preparado pra te destruir.

Eles escolheram os carros, a pista (Tóquio, porque Paulo insistiu), e a corrida começou.

Nos primeiros dez segundos, Andrew estava na frente. Reflexos sobre-humanos tinham suas vantagens.

— QUE?! — Paulo gritou, tentando alcançá-lo. — COMO VOCÊ TÁ TÃO RÁPIDO?!

— Talento natural.

— MENTIRA! VOCÊ TÁ TRAPACEANDO!

— Como eu trapaço num videogame?

— NÃO SEI, MAS VOCÊ TÁ!

Andrew cruzou a linha de chegada em primeiro. Paulo em terceiro (porque tinha batido num muro tentando fazer um atalho que não existia).

— Outra vez — Paulo exigiu.

— Paulo, você já perdeu quatro vezes.

— OUTRA VEZ!

Isadora e Camila estavam no jogo de dança, rindo enquanto pisavam nas setas erradas e perdiam pontos.

— Eu sou péssima nisso! — Isadora gritou, quase caindo ao tentar pisar em duas setas ao mesmo tempo.

— Eu também! — Camila respondeu, mas estava se divertindo demais para se importar.

Depois de meia hora, saíram do fliperama, Paulo ainda reclamando que os controles estavam "claramente sabotados", e seguiram de volta para o estacionamento.

O céu lá fora estava começando a escurecer. Laranja e rosa pintando o horizonte.

— Que dia perfeito — Isadora suspirou, apoiando a cabeça no ombro de Andrew enquanto caminhavam.

— Foi mesmo — ele concordou.

E era verdade.

Tinha sido perfeito.

Até que não foi.


18h34min - Estacionamento

Andrew viu primeiro.

No reflexo da vitrine de uma joalheria, enquanto passavam. Um carro preto. Van. Vidros escuros. Motor ligado.

Ele não teria pensado duas vezes...

Se não fosse o mesmo carro que tinha visto quando chegaram. Três horas atrás. No mesmo lugar.

Motor ligado.

Esperando.

Seu estômago apertou.

— Paulo — ele disse, baixo.

Paulo olhou para ele, percebendo o tom.

— O quê?

Andrew acenou sutilmente com a cabeça na direção do carro.

Paulo olhou. Viu. Entendeu.

— Merda.

— O que foi? — Camila perguntou, percebendo a tensão.

— Nada — Paulo respondeu rápido demais. — Só... vamos pro carro.

— Por quê? — Isadora franziu a testa.

— Porque... — Andrew procurou uma desculpa. — Porque tá ficando tarde. E a gente prometeu não voltar tarde.

Não era convincente. Mas era o melhor que tinha.

Eles aceleraram o passo. Andrew manteve os olhos na van. Ainda parado. Mas ele podia sentir olhos neles.

Chegaram ao carro. Paulo destravou, todo mundo entrou rapidamente.

— Andrew, o que tá acontecendo? — Isadora perguntou, a voz tensa.

— Só... fica calma. — Ele segurou a mão dela. — Tá tudo bem.

Paulo ligou o motor, saiu da vaga.

E a van preta ligou os faróis.

— Ele tá nos seguindo — Andrew murmurou.

— Eu sei — Paulo respondeu, os dedos apertados no volante.

Camila olhou pelo retrovisor.

— Quem são eles?

— Não sei — Paulo mentiu.

Mas Andrew sabia.

E Paulo sabia.

E enquanto saíam do estacionamento, a van preta a poucos metros atrás, a realidade bateu.

O dia perfeito tinha acabado.

E o pesadelo estava começando.

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